Leila Rego » Blog



Sorrisos Rasgados

15 de março de 2019


Nada em mim está no lugar. Com o pensamento longe, bebo do chá frio. Estico a perna que formiga sem que eu me dê conta. E, mais uma vez, o sono me abandonou. Levanto-me da cama e encaro o frio do quarto. Roo as unhas com medo de me tornar uma mulher amargurada e arrependida, dessas que ficam presas no passado. Mas, entenda, a dor é grande demais para ser digerida em uma só noite. Notícias assim sempre me pegam de surpresa. 

As fotos, ainda espalhadas no chão da sala, estão borradas de lágrimas. Rasguei todos os meus sorrisos. Uma a uma, separei minha imagem da sua enquanto revivia nossa história. Uma lenta punição. O preço que estou pagando por ter sido imatura, impulsiva, burra.

Era muito jovem e, como toda adolescente, queria provar das experiências da vida. Havia em mim uma necessidade que, talvez, nunca tenha sido suprida. Uma busca por liberdade, por ir além. Queria atravessar fronteiras, me jogar no desconhecido, namorar com o arriscado, vencer a rotina, ter minhas respostas. O que você me oferecia era pouco. Era banal. Por isso eu ia. E não acreditava quando você me acolhia de volta, e de volta, e me perdoava, me perdoava. Eu o achava puro, ingênuo, doce… Bobo, por receber em seus braços quem o tratava como segunda opção.

Sei que te magoei, mas não foi de propósito. Acho que sempre fui clara e nunca menti sobre meus sonhos. Não pedi suas lágrimas, seu tempo, seus sentimentos. Não queria nada seu. Nem o arco-íris que prometeu, caso eu ficasse ao seu lado para sempre. Para sempre era tempo demais para uma jovem sedenta pelo mundo. Você me assustou com a promessa que toda garota gostaria de ouvir. Lembro da noite, do lugar e das palavras que disse, quando recusei a caixa de veludo e a rosa vermelha.

Se eu fechar os olhos agora, acho que consigo ver as pétalas que joguei no chão, a caixa que nem abri e o seu olhar. Ah, Deus! Atrás da matizes dos seus castanhos, eu fingi não ver a dor, a tristeza, o desapontamento. Fingi. Achei ridículo a sua ceninha. Ignorei o sorriso tremulo que você esboçou. Ri de você mais tarde, junto de minhas amigas. Como eu me puno por ter feito isso com você!

Então parti em busca de desafios e de aventuras. Ao longo dos anos, beijei inúmeras bocas, fui a milhares de festas, cidades, países. Fiz muitos amigos, provei de todos os sentimentos. Achava que estava vivendo o máximo, que tinha a vida perfeita, enquanto você permaneceu no mesmo lugar, vivendo daquele jeito pacato, trabalhando no mesmo estúdio, sendo amigo das mesmas pessoas. Sério, eu odiava você!

Sentia raiva quando me diziam que você ainda me amava, que falava de mim com saudosismo, que guardava foto minha na carteira e que esperava a minha volta. Odiava sua inércia, pois queria que você também vivesse, que se desafiasse, que saísse daquela cidade pequena, tão sem opções, e experimentasse das coisas que eu estava experimentando. Os sentimentos diversos; euforia, adrenalina, alegria, paixão. Que descobrisse o que viver significava. Inconscientemente, quanto mais eu sabia da sua vida, mais para longe eu ia. E então, eu cheguei até aqui sozinha e ainda busco minhas respostas. E você ficou onde sempre foi o seu lugar, com todas as suas perguntas respondidas.

Voltando o olhar para a adolescente que fui, consigo entender algumas coisas. Que eu era onde eu decidia ficar. Entenda, é muito difícil viver algumas experiências e deixá-las partir. Eu era ávida por aventuras. Não sou mais. Eu era impulsiva, hoje sou mais branda. Experimentei coisas, morei nelas e, finalmente, me desapeguei. Mudei meus hábitos. Continuo buscando.

Um pouco tarde para admitir o que eu sempre soube. É orgulho que se fala, né? Chega doer o coração, sabia? Pensar em tudo isso dói. Pensar em você é dilacerante. Mas nunca vou te contar isso. Nunca. Já não faria sentido, não mudaria nada. A vida nos ensina o tempo todo. E este ensinamento está ao alcance dos nossos olhos. Porém, cada um tem seu tempo para enxergar. Quando dei por mim, você já tinha ido.

Está um pouco tarde para consertar meus erros, porque eu sei que você ficou magoado com o meu orgulho e com as bobagens que eu fiz. Mas eu não enxergava. Minha imaturidade não me deixava perceber que não era preciso atravessar fronteiras. O bem mais precioso sempre esteve ao meu lado. No entanto, algumas pessoas só aprendem quando caem. Outras, só reconhecem o valor quando perderam tudo. Só sabem o que é amar quando não sentem mais nada. Eu sou todas elas. Sou uma colcha de retalhos, costurada por inúmeras mãos, sem dono.

Sei que para ela você vai dar o arco-íris, as flores, toda a banalidade que eu não quis. Que ela agora é a sua musa inspiradora. A dona dos seus sorrisos. Ainda sou egoísta e me dou o direito de sofrer, por saber que você está feliz, que vai se casar e realizar todos os seus planos. Os planos que um dia você fez para mim – aqueles dos quais eu debochava e ria por achar tão pueris. É devastador saber que sou apenas seu passado, enquanto cultivo você em meu presente. E o que fazer com o amor registrado nessas fotos, se ele agora pulsa em mim? Como lidar com meus erros, sem me punir? Quando vou achar uma brecha para me perdoar? Deixar passar e recomeçar?

Outro dia amanheceu. Recolho as fotos. Jogo meus sorrisos rasgados no lixo. Guardo os seus em uma gaveta que, provavelmente, nunca mais irei abrir. Saio para trabalhar porque o mundo quer que eu siga em frente. Ele me força. Me cobra. No fundo eu também quero, me forço, me cobro. Sei que, em algum momento da minha busca, eu me perdi e desmoronei. Mas tenho alguma fé no futuro, e em que posso me reconstruir. Ser melhor que antes. É o preço que estou pagando.

Seja feliz, meu bem. Ao menos, esse desejo é sincero.

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